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antiga Pedreira do Cabido, Bencatel, Vila Viçosa).
[no reflexo filial / eis a realidade! ― / quem beberá a sombra? Haiku e fotografia (na antiga Pedreira do Cabido, Bencatel, Vila Viçosa). © Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Da Trindade: Magnificat do amor no mundo

| 01/06/2026

[domingo depois do Pentecostes. Santíssima Trindade ― a ― 2026]

 

1. Ah, o Espírito veio, na ardência do seu amor!
Sopradas por um vento rumoroso,
as suas línguas de fogo acendem o nosso entendimento.
Mais, reduzindo os medos a cinzas,
a sua luz refulgente descerra as portas dos lábios
para cantarmos as maravilhas de Deus, uno e trino.
Com efeito, passados oito dias após o Pentecostes,
novamente nos reunimos, cheios de exultações,
para celebrar o mistério da Santíssima Trindade.

Santíssima Trindade

[Cheios de exultações, celebramos o mistério da Santíssima Trindade. © Fotografia ©Joaquim Félix]

2. Surpreender-nos-á que, para celebrar tão denso mistério,
a liturgia da Palavra apresente leituras breves.
De facto, as passagens do Evangelho segundo São João
e da Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios
possuem apenas três versículos, respetivamente.
Por sua vez, a leitura do Livro do Êxodo só tem cinco versículos.
Talvez possamos ver, nesta aparente escassez de palavras,
vias outras, mais amplas, para nos adentramos no mistério trinitário.

Fotografia (na abadia de Marienberg, Itália)

[A aparente escassez das palavras não é uma porta fechada. Fotografia (na abadia de Marienberg, Itália) ©  Joaquim Félix]

3. A via da beleza, que nos faz transitar de louvor em louvor,
permite ir além das palavras ― aqui tão rarefeitas ―,
constituindo-se como autêntico evangelho trinitário.
No prefácio ao livro A Trindade na arte, de Mario dal Bello,
Nicola Ciola evidencia a narração deste evangelho escrito com imagens:
«Um evangelho trinitário expandiu-se assim
sobre as paredes das igrejas e sobre os altares,
nos códices miniados e nos portais,
proporcionando uma visão luminosa de um mistério que,
graças à arte, em certa medida, se tornou “visível aos nossos olhos”,
como uma encarnação do Verbo nas formas da Beleza.
Que partiu dele e a ele volta através da arte» (La Trinità nell’arte, p.13).
Também Tiago Fonseca explorou grande diversidade de imagens,
textos eucológicos e símbolos,
no seu livro A arte de apresentar o mistério trinitário,
tendo em consideração as suas diferentes tipologias.
É uma obra que pode ser adquirida na Feira do Livro de Lisboa,
ou nas livrarias, a um preço muito acessível.
Felizmente ele dispõe de muitas ilustrações,
cuja variedade surpreender-nos-á com inesperado assombro.
Algumas das apresentações, por serem demasiado antropomorfizadas,
como as Trindades Trifrontes, foram, entretanto, condenadas.

Trindade Trifronte. António di Atri, 1350.

[Trindade Trifronte. António di Atri, 1350. © Fotografia: D.R.]

De facto, sobremaneira em relação a Deus Pai,
não se pode apresentar a Trindade recorrendo a todo o tipo de imagens.
Neste sentido, recordo três versos de António Ramos Rosa:
«O deus não tem imagens, é apenas um sopro
que as dissolve inaugurando a água clara
que é a fidelidade viva ao segredo da origem» (Obra Poética, III, 212).

4. Na longa e sugestiva série de imagens,
que Tiago Fonseca coloca no apêndice fotográfico (pp.161-183),
aparece uma pintura da Trindade, na tipologia Trono da Graça.
Precisando melhor, ela encontra-se na Capela de S. Marcos,
em Carvalhal do Côa, Badamalos, no arciprestado do Sabugal.
De notar que tanto a apresentação da Santíssima Trindade
como a do evangelista S. Marcos, padroeiro da capela,
são duas extraordinárias pinturas murais a fresco, do século XV.
Encontravam-se escondidas por detrás de estruturas retabulares.
Embora estejam em bom estado de conservação,
ostentam algumas falhas, a de S. Marcos mais que a da Trindade.
Porque coloco em relevo esta Santíssima Trindade em fresco?
Porque, através da edição de simulação pela inteligência artificial,
foi possível aceder à versão aproximada do conjunto original.
Mesmo que seja uma reconstrução hipotética,
não deixa de ser significativo que, guardadas as distâncias críticas,
se configure como uma reconstituição com grande plausibilidade.

Pinturas murais na capela de S. Marcos.

[Pinturas murais na capela de S. Marcos. Fotografia: DR]

5. A inteligência artificial consegue fazer proezas,
como reconstituir os frescos originais da capela de S. Marcos,
todavia, dificilmente poderá desvendar muitos mistérios,
entre eles o da Santíssima Trindade, mistério por antonomásia.
No passado dia 15 deste mês, de forma surpreendente,
o Papa Leão XIV assinou a carta encíclica Magnifica Humanitas
― dirigida aos cristãos e a todos os humanos de boa vontade ―,
sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.
É impressionante a quantidade de artigos sobre a encíclica,
que, entretanto, surgiram na impressa mundial.
Deles deu conta Eduardo Jorge Madureira, no jornal 7MARGENS.
Mais importante que o número de artigos nos jornais do planeta
é a qualidade de reflexão que se tem produzido,
em âmbitos e setores que, por ventura, menos se esperaria.
Além de artigos, como muitos de nós terão acompanhado,
têm-se promovido abundantes debates,
inclusive com teólogos da Faculdade de Teologia da UCP.

6. Poderia pensar-se que, para se deter na inteligência artificial,
o Papa Leão XIV não precisaria de evocar a Santíssima Trindade.
Certo é que, não por acaso, a ela se refere.
Na verdade, a propósito dos fundamentos da Doutrina Social da Igreja,
o ser humano é apresentado como «imagem do Deus trinitário».
Assim ele o releva: «A Doutrina social da Igreja remete-nos
ao núcleo central da nossa fé:
o mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo
como comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo,
amor em relação, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo.
Como recorda o Concílio, o ser humano é chamado à comunhão com Deus
e “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”:
a sua vocação mais profunda
é entrar no movimento trinitário do amor recebido e partilhado» (MH 48).

Movimento trinitário do amor

[Entrar no movimento trinitário do amor recebido e partilhado.  Fotografia © Joaquim Félix]

7. Em perfeito alinhamento com quanto ouvimos no Evangelho deste dia,
podemos ler, no número seguinte, outro destaque que o Papa faz
em termos de consequências sociais da ação da Igreja no mundo:
«Se o mistério de Deus-Amor é a fonte da Doutrina social,
o seu rosto mais concreto contemplamo-lo em Jesus Cristo, Verbo encarnado.
Fazendo-se homem, o Filho de Deus entra na nossa história e na nossa carne,
a estas trazendo o amor que O une ao Pai e ao Espírito Santo.
N’Ele “o mistério do homem […] se esclarece verdadeiramente”
porque a sua humanidade é plenamente livre, aberta aos outros,
capaz de construir relações solidárias e belas,
comprometida com o dom total de si mesmo.
Quem acredita n’Ele está envolvido na grande obra de renovação
Inaugurada pelo mistério da sua paixão, morte e ressurreição,
e coopera na edificação do Reino de Deus,
aprendendo a acolher cada mulher e homem como irmã e irmão,
filhos dum único Pai.
Deste modo, tanto o anúncio como a experiência cristã,
guiados pela ação do Espírito Santo,
tendem a gerar no mundo consequências sociais» (MH 49).

Piazza dei Cavalieri di Malta, Roma.

[Técnicas de restauro no intervalo do almoço. Piazza dei Cavalieri di Malta, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

8. Sendo o ser humano imagem do Deus trinitário,
voltemos a escutar quanto nos narra S. João no Evangelho:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,16-17).
Se Deus amou e ama tanto o mundo,
sendo nós imagem incarnada do seu amor,
poderemos, porventura, odiar o mundo, ou fugir dele?
Há quem pense que a Igreja, ao tratar de assuntos
como os que dizem respeito à inteligência artificial,
estará a desviar-se da sua missão evangelizadora.
Estará mesmo? Que nos parece?

Antico Ghetto Ebraico, Roma.

[Poderemos, porventura, odiar o mundo, ou fugir dele? Antico Ghetto Ebraico, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

9. Pugnando por uma Igreja que, como peregrina,
caminha na história da humanidade,
o Papa sente que estas temáticas não são «questões mundanas» (MH 3),
nas quais se desperdiçam energias.
Pelo contrário, ele propõe-nas como prioridades à Igreja,
a discernir segundo o amor «clemente e compassivo» (Ex 34,6) de Deus:
«Assim, ela (Igreja) coloca-se ao lado do mundo sem se lhe sobrepor,
para que em cada circunstância humana
possa germinar a promessa de justiça e paz,
que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade» (MH 20).

Poeta de rua, Roma

[Neste tempo de desatenção e descarte, valerá a pena repoetizar a vida. Poeta de rua, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

10. Não podendo sintetizar a imensa quantidade de temas da encíclica,
sugiro-vos a sua leitura na íntegra, se é que não a fizestes já.
Atendendo, porém, à escalada nas guerras em curso,
sobretudo entre a Rússia e a Ucrânia, e de Israel no sul do Líbano,
onde o uso de armas recorre cada vez mais à IA,
sublinho a urgência de atender a todos os reptos lançados no capítulo V,
no qual o Papa reflete sobre a cultura do poder e a civilização do amor.
Como poderemos, por exemplo, desarmar as palavras?
Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios,
sugere-nos uma via que, tanto no seu tempo como hoje, continua válida:
«Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição,
animai-vos uns aos outros,
tende os mesmos sentimentos, vivei em paz» (2Cor 13,11).
Sim, não duvidemos da sabedoria que experimentamos pela paz:
o Deus do amor trinitário estará connosco no mistério da alegria.
E, bem assim, como sustentava Edgar Morin, sociólogo e filósofo,
― que acabou de nos deixar aos 104 anos de idade ―,
«o conhecimento deve conduzir-nos ao mistério das coisas».

11. Neste último dia de maio, saudemos também Maria,
que, cheia de Jesus, nos visita como à sua prima Isabel,
para, com amabilidade, nos saudar e se colocar ao nosso serviço.
Assim como o encontro das primas foi vivido
na semelhança de um encontro-de-cantares,
assim também, como me dizia um amigo esta manhã,
«neste tempo de desatenção e descarte,
valerá a pena repoetizar (a iniciação cristã, a vida e a liturgia),
explicando que Deus é não só Poeta como Poesia…
e que nós precisamos muito dos seus poemas» (Ruy Ventura).
Na alegria da paz, recordemo-nos sempre:
o mistério da Santíssima Trindade é para ser vivido com gozo,
até porque, parafraseando Miles Davis,
este como outros mistérios nunca nos passaram pela cabeça.
Talvez, quem sabe, só pela razão colocada no coração.

12. O Pai é amor; o Filho é graça; o Espírito Santo é Comunhão.
Oh Santíssima Trindade!
Em vós nos saudamos. Para vós cantamos o incessante refrão:
«Digno é o Senhor de louvor e de glória para sempre» (Dan 3,52).

Santíssima Trindade

[Oh Santíssima Trindade! Fotografia © Joaquim Félix]

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das PassagensEste texto corresponde à homilia de domingo, 31 de maio, domingo depois do Pentecostes. Santíssima Trindade, proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga. 

 

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